sexta-feira, 17 de março de 2017

Lícia Peres, socióloga, feminista e ativista da Anistia, morre aos 77 anos

A vereadora Sofia Cavedon (PT), Procuradora da Mulher da Câmara Municipal de Porto Alegre, lamenta o falecimento da socióloga e feminista Lícia Peres, ocorrido nesta quinta-feira (16). "É uma grande perda para a luta dos direitos das mulheres".

Da Redação/Sul21

Foto Ramiro Furquim/Sul21
Lícia Peres, socióloga e líder do Comitê Feminino pela Anistia, no Rio Grande do Sul, faleceu nesta quinta-feira (16), em Porto Alegre. Aos 77 anos, Lícia tratava um câncer e deixa um filho, Lorenzo.

Em seu blog pessoal, Lícia se definia como “socióloga, feminista, fundadora do PDT, mãe do Lorenzo, cinéfila, amante da literatura, da música e das artes”. Natural de Salvador, na Bahia, veio morar no Rio Grande do Sul depois de casar com o jornalista e político gaúcho Glênio Peres, em 1964. E se dizia “porto-alegrense de coração”. Em 1992, recebeu o título de cidadã da capital gaúcha.

Para os amigos, Lícia sempre foi uma mulher de “posições firmes”. “O que eu lembro dela é a figura de uma mulher com consistência política muito firme, sempre com posições progressistas, companheira inseparável do Glênio Peres, foi um dos quadros mais qualificados do PDT”, lembra Carlos Bastos, companheiro de partido. “Era uma pessoa com personalidade especial”.

Ela chegou a se lançar como candidata duas vezes. A primeira, como vice-prefeita da chapa de Vieira da Cunha à prefeitura de Porto Alegre, em 2004. Depois, como candidata do PDT ao Senado, em 2010. Bastos diz que lembra melhor da campanha de 2004, quando viu a amiga “palmilhar” toda a Porto Alegre e “levantar a militância trabalhista” que estava afastada do partido.

Lícia dedicou toda sua vida à defesa de posições trabalhistas e dos direitos das mulheres. No ano passado, chegou a publicar dois artigos no Sul21 sobre o feminismo. Em deles, falava sobre o filme “As sufragistas” e o direito ao voto, em outro comentava o movimento das estudantes do Colégio La Salle que protestaram pelo direito de usar shortinhos na escola.

Mas um de seus papéis mais pontuais na História recente do Brasil foi como ativista e liderança dos movimentos pela Anistia. Lícia ajudou a criar o Comitê Feminino pela Anistia no Rio Grande do Sul, o segundo do país. Ela defendia que o movimento pela anistia era, antes de tudo, “feminino e feminista”. As mulheres começaram a trazer a palavra para o debate, três anos antes de que o Comitê pela Anistia fosse criado.

Em Porto Alegre, quando surgiu o convite da advogada Therezinha Zerbini para a expansão do Movimento Feminino pela Anistia, criado em São Paulo, Lícia trabalhou junto com uma de suas amigas mais próximas para criar o braço gaúcho: Dilma Rousseff. Dilma, que na época estava casada com Carlos Araújo, havia sido companheira de Therezinha como presa política. A primeira presidente do Movimento no RS foi Lícia.

“Pela primeira vez se criava um movimento de mulheres para enfrentar a ditadura militar. Nosso lema era ‘Lugar de brasileiro é no Brasil’. Passamos a nos reunir nas casas de conhecidos, em lugares cedidos, nunca tivermos sede própria. Praticamente metade das 12 mil assinaturas do abaixo-assinado pedindo a anistia entregue ao general Golbery do Couto e Silva foi recolhida no Rio Grande do Sul. E não foi fácil. Uma das signatárias do documento, a professora Enid Backes, foi demitida da escola onde lecionava, por se recusar a retirar seu nome do abaixo-assinado”, lembrou ela em 2014, em entrevista ao Sul21.

Anos depois, Lícia avaliava que a “anistia obtida não foi a ideal, mas sim a possível”. Ela era contra a revisão da lei e não aceitava quem dizia que havia sido mal negociada. Seguia militando por direitos trabalhistas. Foi contrária ao impeachment de Dilma e a favor da Operação Lava Jato “na sua ação moralizadora de combate à corrupção, separando as estações”. Sempre uma defensora dos direitos das mulheres de serem o que quisessem. Ainda um quadro do PDT.

Fonte: Portal Sul21.