sexta-feira, 17 de abril de 2015

As carroças, o tempo e o meio ambiente - Por Sofia Cavedon

Artigo publicado no Portal Sul21 

Foto Ramiro Furquim/Sul21
Este é o típico caso em que o prazo anda rápido e as políticas bem devagar, se não para trás.

Os galpões de reciclagem que foram construídos pelas Administrações Populares que também implantaram a coleta seletiva, seguem praticamente os mesmos desde então, na quantidade, porém em piores condições estruturais, sem aporte de tecnologia, recebendo materiais mistos ou compactados, com renda baixa, sem previdência, sem férias, sem assistência, saúde. Como se espera que carroceiros(as) e carrinheiros(as) que buscam diretamente o lixo e reciclam em casa ou pequenos galpões sejam atraídos para o trabalho coletivo?

De outro lado, a coleta seletiva, que antes era realizada pela própria prefeitura, foi terceirizada e a coleta do lixo orgânico das vilas também foi. Perdemos educação ambiental permanente, gestão dialogada e produtora de novas práticas sustentáveis. Resultado das duas medidas: proliferação de focos de lixo e coleta seletiva irregular por pequenas caminhonetes, kombis, que levam às comunidades o material, ali selecionam e fazem o descarte – em volumes imensos e misturado com lixo orgânico – formando verdadeiros lixões em volta das casas, ou seja, degradação ambiental e das condições de vida.

Na região central, o investimento em contêineres provoca retrocesso na separação do lixo. Neles são colocados indiscriminadamente lixo seco e lixo orgânico, por não haver dois deles, como muitas cidades fizeram. Os papeleiros, até a proibição de circulação nessa área da cidade, ainda faziam algum tipo de mitigação buscando, nos contêineres, os materiais que lhes interessavam.

A capital, prêmio de inovação e limpeza urbana na década passada, abandonou campanhas de redução de lixo, de reciclagem e separação total. Se à época era vanguarda, hoje perde para experiências significativas como a de Novo Hamburgo que apostou na parceria com carroceiros(as) e carrinheiros(as) que fazem desde a coleta até a venda, ampliando a renda destes trabalhadores e trabalhadoras e a limpeza da cidade.

Na capital dos gaúchos a terceirização na área de limpeza urbana anda na contramão das novas exigências ambientais, mais enterrando e misturando o lixo do que reciclando e reduzindo. E, na contramão dos direitos trabalhistas, contratando, por exemplo, capina, varreção, sem garantir pelo menos trinta dias de férias aos trabalhadores e trabalhadoras.

Se continuar empurrando os(as) carroceiros(as) para longe dos olhos e o lixo para baixo da terra, chegará uma hora que não haverá mais tapete e a casa suja saltará aos olhos.

Sofia Cavedon é vereadora do PT de Porto Alegre/RS.

Fonte: Portal Sul21.