quinta-feira, 30 de junho de 2011

Carta à Liberdade - Por Sofia Cavedon

Artigo publicado na edição desta quinta-feira (30) no jornal Zero Hora

Os poucos dias à frente da Prefeitura Municipal, momentos em que ficam aguçados os sentidos, aumentado ainda mais o senso de responsabilidade com o mandato concedido pelo povo, são como se tudo se tornasse urgente e contundente

Desta vez, a Vila liberdade pediu socorro. Desta vez, não, mais uma vez! Ciente de que uma das pautas era a falta de água, chamei o DMAE e fomos visitá-la. Seguindo o “mangueirão”- por onde a água supostamente chega às casas - como o fio de Ariadne, fomos entrando no labirinto inescrutável da capacidade de sobrevivência humana.

foto ricardo giusti/pmpa
Nos ossos, na pele, na memória, na consciência, carregamos as imagens da sempre surpreendente disposição para brincar das crianças, abstraindo o entorno: se há uma tabuinha no meio do lodo, ali elas giram o pião; se há um canto seco na casa, cercado de roupas empilhadas, ali elas viram cambalhotas; se há uma televisão na cômoda que escapou das goteiras, em frente a ela viajam, brincam, participam da vida que as imagens e sons apresentam.

O “mangueirão” nos leva a incontáveis maneiras de lavar e secar roupas, tarefa que valorosas mulheres teimam em fazer, sem uma nesga de sol, em exíguos espaços. Pelos acessos estreitos pisamos no esgoto e no barro, driblados com tapetes velhos, lixo, tábuas, mas só vamos enxergar a verdadeira dimensão desta umidade e contaminação quando espiamos embaixo dos assoalhos – de quem os tem – e ali há muito mais!

foto ricardo giusti/pmpa
Era sábado pela manhã e todos os adultos daquele labirinto estavam envolvidos na luta pela sobrevivência. Em muitas casas, só as crianças nos espiavam. Élida, a líder comunitária que nos guiava pelos vestígios do mangueirão, em cada casa, convocava para a assembleia de moradores que aconteceria na segunda-feira, onde mais uma vez, avaliariam os passos para a conquista da urbanização, da moradia digna, do acesso à água limpa, ao solo seco, à luz elétrica para o tão sonhado banho quente.

“A palavra arrasta o povo” dizia Nejar. A certeza dos direitos, naquela vila que chamaram Liberdade, arrasta a esperança que eles mantem viva com a luta. Lá, eles vencem um Minotauro por dia, o difícil é sair do labirinto da absoluta falta de investimento, da desigualdade perpetuada pela materialidade da vida.

O dístico “minha casa, minha vida” nunca ganhou tanta significação, tanta urgência, tanta denúncia! É o sonho que faz com que o fio da luta não se parta e leve finalmente à saída do labirinto. Mas o insaciável Minotauro derrotado por Teseu, com suas novas faces contemporâneas e sua capacidade de reinvenção, não está assombrando só na Liberdade. Terá que ser derrotado pela coragem e teimosia dos que não se acomodam apenas alimentando o monstro!

Sofia Cavedon – Presidente da Câmara Municipal de Porto Alegre